Woody Allen volta a acertar
Em dado momento de Vick Cristina Barcelona, Juan Antonio, o personagem de Javier Bardem, revela para Vick que o pai dele é um excelente poeta, mas se recusa a publicar seus poemas porque o mundo não os merece. Excelente ponto de partida para compreender o próprio Juan, um homem que parece em extinção atualmente. É interessante analisar esse personagem contrapondo-o ao noivo de Vick, um yuppie, exemplo clássico de pessoa que se esquece de exercitar o lado direito do cérebro, e ao marido de Judy, que questiona Vick sobre a dissertação de mestrado dela. “O que você vai fazer com isso?”; um questionamento extremamente grosseiro. Na míope visão de mundo dele, se não traz benefício financeiro, que vantagem pode trazer? A insatisfação da esposa tem lugar. O macho tosco e insensível, aqui, é de certa forma punido.
Esse diferencial percebido no pintor muitas vezes é interpretado por alguns homens como “viadagem”, mas é algo do qual várias mulheres sentem falta, uma sensibilidade masculina que diferencia um homem dos outros. Cristina, num primeiro momento, é mais astuta e logo percebe que Juan tem esse lado diferente. Vick, por seu turno, talvez assustada com a abordagem inicial agressiva do artista, resiste num primeiro momento, mas depois percebe o mesmo que a amiga, de supetão, percebera. Estava faltando algo no relacionamento dela e ela não tinha ideia do que era; foi descobrir na viagem a Oviedo. Inaugura-se, para ela, um momento de total insegurança com relação aos seus sentimentos e a descoberta de algo que até então nem imaginaria que pudesse ser despertado.
Porém o mesmo diferencial que faz de Juan Antonio uma preciosidade torna-o uma opção alternativa demais, mesmo para a pretensamente liberal Cristina. O retorno da ex-esposa desequilibrada Maria Elena à casa do pintor vai descortinar um lado da personalidade deles, um amor totalmente irracional e por isso mesmo intenso, que pode soar como uma quase afronta aos valores americanos e por extensão aos de Cristina, estabelecendo aí um dilema para ela. O fascínio, entretanto, faz a americana adotar o espírito transgressor de Juan e de Maria e mergulhar num mundo colorido e voltar a atenção a um talento talvez adormecido, talvez inexistente.
Vick Cristina Barcelona é um filme para refletir. Uma reflexão fundada não em escapismos fáceis, mas em elucubrações que tornam as relações humanas complexas, como de fato são. Longe de um tratamento superficial dos sentimentos dos personagens, Allen, como fez em Match Point, consegue extrair o máximo do elenco, mesmo de uma atriz limitadíssima como Scarlett Johansson, em atuações tridimensionais. Ressalva há que se fazer apenas à narração em off, que se mostra redundante em vários momentos e desfaz a magia de algumas sequências que já se autoexplicam.
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
O principal suspeito / A espinha do diabo
Mais suspenses esquecidos
Já comentei aqui mesmo no blog sobre thrillers de suspense esquecidos pelo grande público; volto ao tema para trazer mais dois ótimos exemplos: O principal suspeito (Nightwatch) e
A espinha do diabo (El espinazo del diablo).
Assisti aos dois no cinema; o primeiro foi em 1998, no shopping cidade, aqui de BH, em uma sessão de sábado, com o cinema quase às moscas (do jeito que eu gosto). O filme narra a história de um estudante de direito (Ewan Mcgregor) que precisa aceitar um trabalho de vigia noturno para pagar o último semestre da faculdade; só que o trabalho é em um necrotério sinistro, e num momento em que há um maníaco necrófilo à solta... Boas atuações de Nick Nolte e de Josh Brolin (aquele mesmo de Os Goonies e visto recentemente em Onde os fracos não têm vez).
Quando vi A espinha do diabo, no finado Cine Nazaré em 2001, estávamos apenas eu, o projecionista e mais dois heróis da resistência na sessão; impressionante como o público médio perde excelentes oportunidades de ver um bom filme...
O que mais me chamou a atenção no filme foi a sua qualidade indiscutível como suspense. Arrisco a dizer que é superior a O sexto sentido; as histórias são similares, mas A espinha tem como diferencial um roteiro mais consistente, que utiliza, inclusive, o gancho da guerra civil espanhola para a construção de uma cena linda, ao final; o filme, ainda, não se alicerça em apenas uma boa atuação infantil; todo o elenco de garotos se sobressai, tornando-o realmente imperdível.
Links dos filmes no Adoro Cinema:
http://www.adorocinema.com/filmes/principal-suspeito/principal-suspeito.asp
http://www.adorocinema.com/filmes/espinha-do-diabo/espinha-do-diabo.asp
Até mais!
Já comentei aqui mesmo no blog sobre thrillers de suspense esquecidos pelo grande público; volto ao tema para trazer mais dois ótimos exemplos: O principal suspeito (Nightwatch) e
A espinha do diabo (El espinazo del diablo).
Assisti aos dois no cinema; o primeiro foi em 1998, no shopping cidade, aqui de BH, em uma sessão de sábado, com o cinema quase às moscas (do jeito que eu gosto). O filme narra a história de um estudante de direito (Ewan Mcgregor) que precisa aceitar um trabalho de vigia noturno para pagar o último semestre da faculdade; só que o trabalho é em um necrotério sinistro, e num momento em que há um maníaco necrófilo à solta... Boas atuações de Nick Nolte e de Josh Brolin (aquele mesmo de Os Goonies e visto recentemente em Onde os fracos não têm vez).
Quando vi A espinha do diabo, no finado Cine Nazaré em 2001, estávamos apenas eu, o projecionista e mais dois heróis da resistência na sessão; impressionante como o público médio perde excelentes oportunidades de ver um bom filme...
O que mais me chamou a atenção no filme foi a sua qualidade indiscutível como suspense. Arrisco a dizer que é superior a O sexto sentido; as histórias são similares, mas A espinha tem como diferencial um roteiro mais consistente, que utiliza, inclusive, o gancho da guerra civil espanhola para a construção de uma cena linda, ao final; o filme, ainda, não se alicerça em apenas uma boa atuação infantil; todo o elenco de garotos se sobressai, tornando-o realmente imperdível.
Links dos filmes no Adoro Cinema:
http://www.adorocinema.com/filmes/principal-suspeito/principal-suspeito.asp
http://www.adorocinema.com/filmes/espinha-do-diabo/espinha-do-diabo.asp
Até mais!
quinta-feira, 2 de abril de 2009
O gângster
Uma quase obra-prima
É possível um diretor realizar um filme quase perfeito, colocando tudo a perder nos 20 minutos finais? Depois de assistir a O gângster temos a convicção de que sim, isso é possível.
O gângster foi feito para dar certo: elenco de peso, direção segura de Ridley Scott, reconstituição de época perfeita, trilha sonora com clássicos inesquecíveis da Motown e Denzel Washington inspiradíssimo na construção de um Frank Lucas complexo, que apresenta uma ambiguidade que o torna um homem de mil faces, vacilando uma vez mais entre um instinto assassino e o de um homem que ora na mesa de jantar com a família ou quando é confrontado pela mãe, a veterana Ruby Dee em elogiada composição. O negro pobre do Harlem, que vê sua soberania nascer depois da morte de seu mentor, lança mão de um modus operandi ousado – mas ao mesmo tempo muito discreto –, até então restrito apenas às “famílias” de mafiosos italianos, comercializando uma droga que chegava a 100% de pureza, utilizando contatos com militares em plena Guerra do Vietnã e cultivando amizades com várias estrelas do mundo do esporte, entre os quais o ex-boxeador Joe Louis. A dualidade do personagem é um dos pilares de sustentação de uma narrativa que se vale mais da força das suas atuações do que da relevância do seu argumento.
Russel Crowe, com seu detetive acima de qualquer suborno, Richie, ao mesmo tempo em que se afasta de Lucas pela sua conduta exemplar, mostra-se incapaz de ser um homem feliz na sua vida privada. Crowe empresta verossimilhança na construção do personagem, por exemplo, quando achincalha seu parceiro ao salvá-lo de um possível linchamento ou quando se nega a embolsar parte do 1 milhão de dólares que apreendera, fato que o torna uma ameaça a policiais corruptos como o sujo detetive Trupo, interpretado por um não menos inspirado Josh Brolin.
A narrativa, não obstante ser bem engendrada, derrapa exatamente quando começa o embate direto entre as figuras do traficante e do policial, depois de mais de duas horas de filme. Na medida em que se aproximam, começa um tipo de amizade que fica difícil conceber, depois de o policial passar mais da metade da história sem ao menos conhecer o bandido e, quando o conhece, descobrir que pelas mãos daquele homem milhares de quilos da droga eram despejados em solo americano, ceifando vidas e alastrando um ciclo de violência nas ruas de Nova York. Soa artificial e falso não o fato de Lucas colaborar com a polícia, mas sim o de Richie criar uma aproximação tão direta com o traficante a ponto de abandonar a força para se dedicar à advocacia e ter ninguém mais, ninguém menos que Frank Lucas como seu primeiro cliente! Ok, o filme é baseado em fatos reais, mas poderia ter sido dedicado um tempo maior para que essa tal amizade parecesse mais aceitável aos olhos de quem a recebe, e não feita “às pressas” como de fato foi concebida. Não fosse por essa mancada do roteiro, O gângster poderia ser uma obra-prima, não apenas um filme excelente.
É possível um diretor realizar um filme quase perfeito, colocando tudo a perder nos 20 minutos finais? Depois de assistir a O gângster temos a convicção de que sim, isso é possível.
O gângster foi feito para dar certo: elenco de peso, direção segura de Ridley Scott, reconstituição de época perfeita, trilha sonora com clássicos inesquecíveis da Motown e Denzel Washington inspiradíssimo na construção de um Frank Lucas complexo, que apresenta uma ambiguidade que o torna um homem de mil faces, vacilando uma vez mais entre um instinto assassino e o de um homem que ora na mesa de jantar com a família ou quando é confrontado pela mãe, a veterana Ruby Dee em elogiada composição. O negro pobre do Harlem, que vê sua soberania nascer depois da morte de seu mentor, lança mão de um modus operandi ousado – mas ao mesmo tempo muito discreto –, até então restrito apenas às “famílias” de mafiosos italianos, comercializando uma droga que chegava a 100% de pureza, utilizando contatos com militares em plena Guerra do Vietnã e cultivando amizades com várias estrelas do mundo do esporte, entre os quais o ex-boxeador Joe Louis. A dualidade do personagem é um dos pilares de sustentação de uma narrativa que se vale mais da força das suas atuações do que da relevância do seu argumento.
Russel Crowe, com seu detetive acima de qualquer suborno, Richie, ao mesmo tempo em que se afasta de Lucas pela sua conduta exemplar, mostra-se incapaz de ser um homem feliz na sua vida privada. Crowe empresta verossimilhança na construção do personagem, por exemplo, quando achincalha seu parceiro ao salvá-lo de um possível linchamento ou quando se nega a embolsar parte do 1 milhão de dólares que apreendera, fato que o torna uma ameaça a policiais corruptos como o sujo detetive Trupo, interpretado por um não menos inspirado Josh Brolin.
A narrativa, não obstante ser bem engendrada, derrapa exatamente quando começa o embate direto entre as figuras do traficante e do policial, depois de mais de duas horas de filme. Na medida em que se aproximam, começa um tipo de amizade que fica difícil conceber, depois de o policial passar mais da metade da história sem ao menos conhecer o bandido e, quando o conhece, descobrir que pelas mãos daquele homem milhares de quilos da droga eram despejados em solo americano, ceifando vidas e alastrando um ciclo de violência nas ruas de Nova York. Soa artificial e falso não o fato de Lucas colaborar com a polícia, mas sim o de Richie criar uma aproximação tão direta com o traficante a ponto de abandonar a força para se dedicar à advocacia e ter ninguém mais, ninguém menos que Frank Lucas como seu primeiro cliente! Ok, o filme é baseado em fatos reais, mas poderia ter sido dedicado um tempo maior para que essa tal amizade parecesse mais aceitável aos olhos de quem a recebe, e não feita “às pressas” como de fato foi concebida. Não fosse por essa mancada do roteiro, O gângster poderia ser uma obra-prima, não apenas um filme excelente.
segunda-feira, 30 de março de 2009
Quem quer ser um milionário?
É difícil entender como um filme como Quem quer ser um milionário? tenha sido tão elogiado por público e crítica, tendo arrebatado vários prêmios mundo afora. Só mesmo as diferenças culturais para explicar esse fenômeno, já que, por aqui, a recepção (pelo menos por parte da crítica) não foi tão boa assim. Boa parte do público, entretanto, gostou de ver mais essa exploração de clichês reciclados e devidamente aclimatados.
Levando às telas a história de um garoto indiano prestes a se tornar um milionário por meio da participação em um concurso no melhor estilo “show do milhão”, Danny Boyle, o diretor superestimado de Transpoitting, não consegue impor um filme à altura de seu argumento. Para nós, latinoamericanos, não é surpresa nenhuma ver meninos tendo de se virar para comer o pão – quase negado – de cada dia ou favelas com esgoto a céu aberto e lixo até onde a vista alcança, mas parece haver, lá fora, um fetiche por pobreza (basta lembrar que na favela da Rocinha há excursões ao alto do morro para turistas deslumbrados com as vielas da maior favela da América Latina). Talvez isso explique em parte o sucesso do filme em outras terras. Boyle parece não desenvolver a contento nenhum dos personagens de Quem quer ser um milionário?, fazendo-os marionetes sem nenhum traço de ambiguidade ou complexidade, ante um roteiro repleto de clichês que quer ser inovador e catártico.
A historinha de amor que perpassa o filme não tem a profundidade que a tornaria mais humana e interessante, resumindo-se a diálogos tolos e a uma superficialidade de dar pena. Entretanto, se Quem que ser um milionário? é incipiente com relação ao desenvolvimento dos seus personagens o mesmo não pode ser dito dos atores mirins, que são responsáveis pelos melhores momentos do filme e sustentam a fragmentada narrativa com carisma e boas atuações. Mérito também para a trilha sonora, recheada de deliciosa música indiana e que combina perfeitamente com a fotografia de Dod Mantle e com a montagem ágil de Chris Dickens. Um filme muito eficiente em termos comerciais, mas um tanto capenga pelo viés narrativo.
Levando às telas a história de um garoto indiano prestes a se tornar um milionário por meio da participação em um concurso no melhor estilo “show do milhão”, Danny Boyle, o diretor superestimado de Transpoitting, não consegue impor um filme à altura de seu argumento. Para nós, latinoamericanos, não é surpresa nenhuma ver meninos tendo de se virar para comer o pão – quase negado – de cada dia ou favelas com esgoto a céu aberto e lixo até onde a vista alcança, mas parece haver, lá fora, um fetiche por pobreza (basta lembrar que na favela da Rocinha há excursões ao alto do morro para turistas deslumbrados com as vielas da maior favela da América Latina). Talvez isso explique em parte o sucesso do filme em outras terras. Boyle parece não desenvolver a contento nenhum dos personagens de Quem quer ser um milionário?, fazendo-os marionetes sem nenhum traço de ambiguidade ou complexidade, ante um roteiro repleto de clichês que quer ser inovador e catártico.
A historinha de amor que perpassa o filme não tem a profundidade que a tornaria mais humana e interessante, resumindo-se a diálogos tolos e a uma superficialidade de dar pena. Entretanto, se Quem que ser um milionário? é incipiente com relação ao desenvolvimento dos seus personagens o mesmo não pode ser dito dos atores mirins, que são responsáveis pelos melhores momentos do filme e sustentam a fragmentada narrativa com carisma e boas atuações. Mérito também para a trilha sonora, recheada de deliciosa música indiana e que combina perfeitamente com a fotografia de Dod Mantle e com a montagem ágil de Chris Dickens. Um filme muito eficiente em termos comerciais, mas um tanto capenga pelo viés narrativo.
quarta-feira, 18 de março de 2009
Por que o BBB é uma merda?
Darei um tempo no cinema para dedicar as próximas linhas a um assunto que me irrita bastante. Exporei minha opinião sobre esse lixo da TV brasileira que atende pelo nome de BBB. A ideia do programa surgiu com John de Mol em 1999, que emprestou o nome Big Brother do livro 1984, de George Orwell. A princípio parecia até ser uma boa ideia: colocar em uma mesma casa várias pessoas comuns para analisar o comportamento delas ante à pressão do privamento de contatos com o mundo exterior. Uma experiência parecida foi conduzida em 1971 pelo psicólogo Philip Zimbardo, chamada de “A experiência de Stanford”, em que 19 homens seriam selecionados entre guardas e presidiários numa espécie de prisão construída nos fundos da faculdade, visando ao estudo dos efeitos psicológicos numa cadeia. Esse evento foi retratado no filme alemão Das experiment, de 2001. Mas e o BBB, visa a que?
De fato, é aí que reside o grande problema do programa: é uma espécie de parque de diversões para voyeurismo, nada mais. Não sei como a “atração” é conduzida nos outros países em que é produzida, mas a versão brasileira, desde o início, é um desfile de imbecilidades e diálogos da profundidade de um pires. Gente que quer aparecer a todo custo, submetendo-se a quase tudo, em busca de fama não por meio de algum talento artístico (embora alguns possam até ter mesmo), mas muito mais pela superexposição, que cria uma enxurrada de “celebridades” sem nada a oferecer a não ser peitos, bundas... e chatice! E ainda há uma Rede Globo, que força a barra para transformar alguns em atrizes, apresentadores do “cansástico”... Exemplos não faltam de personagens desinteressantes que não servem nem como entretenimento pueril, que dirá para se tentar fazer qualquer análise sociológica ou comportamental. Será que quando de Mol idealizou o programa ele tinha noção de quanta imbelicidade estava por vir?
Já que o blog serve, entre outras coisas, para postar dicas de filmes, por que não indicar também alguns programas do tipo reality show que não têm a idiotice que se vê num BBB? O People & Arts exibe alguns, o Discovery Channel, outros. Um que achei bem interessante é o “10 anos mais jovem”, no qual uma pessoa é escolhida para passar por um “upgrade” na aparência e no guarda-roupa. “Perder para ganhar”, do Discovery Home and Health, é outro exemplo que vale a pena ser conferido. Gosto de "O Aprendiz", mas é hilário ver Roberto Justus tentando se passar por Donald Trump na versão brasileira! Enfim, há diversas opções na TV paga, mas também na TV aberta: ver "Super Nanny" ou "Dr. Hollywood" é infinitamente melhor do que se desgastar vendo aquelas discussões tolas dos idiotas do BBB. Aliás, ver qualquer coisa é melhor do que ver essa merda!
De fato, é aí que reside o grande problema do programa: é uma espécie de parque de diversões para voyeurismo, nada mais. Não sei como a “atração” é conduzida nos outros países em que é produzida, mas a versão brasileira, desde o início, é um desfile de imbecilidades e diálogos da profundidade de um pires. Gente que quer aparecer a todo custo, submetendo-se a quase tudo, em busca de fama não por meio de algum talento artístico (embora alguns possam até ter mesmo), mas muito mais pela superexposição, que cria uma enxurrada de “celebridades” sem nada a oferecer a não ser peitos, bundas... e chatice! E ainda há uma Rede Globo, que força a barra para transformar alguns em atrizes, apresentadores do “cansástico”... Exemplos não faltam de personagens desinteressantes que não servem nem como entretenimento pueril, que dirá para se tentar fazer qualquer análise sociológica ou comportamental. Será que quando de Mol idealizou o programa ele tinha noção de quanta imbelicidade estava por vir?
Já que o blog serve, entre outras coisas, para postar dicas de filmes, por que não indicar também alguns programas do tipo reality show que não têm a idiotice que se vê num BBB? O People & Arts exibe alguns, o Discovery Channel, outros. Um que achei bem interessante é o “10 anos mais jovem”, no qual uma pessoa é escolhida para passar por um “upgrade” na aparência e no guarda-roupa. “Perder para ganhar”, do Discovery Home and Health, é outro exemplo que vale a pena ser conferido. Gosto de "O Aprendiz", mas é hilário ver Roberto Justus tentando se passar por Donald Trump na versão brasileira! Enfim, há diversas opções na TV paga, mas também na TV aberta: ver "Super Nanny" ou "Dr. Hollywood" é infinitamente melhor do que se desgastar vendo aquelas discussões tolas dos idiotas do BBB. Aliás, ver qualquer coisa é melhor do que ver essa merda!
segunda-feira, 9 de março de 2009
Dicas de filmes: thrillers de suspense
Muitos filmes, principalmente thrillers de suspense, caem no esquecimento por motivos que, às vezes, fogem do nosso entendimento. Citaria aqui pelo menos cinco ótimos exemplos desse gênero (postarei mais depois): Malícia, de 1993, A farsa, de 1988, Face a face com o inimigo, de 1992, Sob a sombra do mal, de 1990 e, mais recente, Vidas em jogo, de 1997.
Todos exemplos vívidos de roteiros que mais se valem de uma história bem contada do que de reviravoltas sem sentido, que não têm razão de ser dentro da narrativa além de uma mera tentativa de fazer algo diferente do que já se fez. Essa característica, inclusive, está muito presente em alguns dos mais recentes produtos que Hollywood tem lançado goela abaixo de incautos espectadores.
Melhor mesmo é fazer uma coleta de informações para chegar a esses filmes injustamente esquecidos por grande parte dos que gostam de cinema, para ter agradáveis surpresas (desde que você não seja daqueles que tenham aversão a filmes mais antigos!). No Orkut há uma comunidade boa para isso, chamada “filmes que ninguém se lembra”. As pessoas da comunidade conhecem muitos desses filmes, ajudando bastante na lembrança dos nomes e até mesmo em como fazer para baixá-los nos variados softwares de download disponíveis na rede.
Vidas em jogo e Face a face com o inimigo estão disponíveis em DVD, sendo, por isso, mais fáceis de encontrar; os demais eu ainda não encontrei nesse formato, mas é possível baixar pela internet, desde que você saiba o título original da obra. Para ajudar, trago essa e outras informações por meio de links que encontrei na internet:
Malícia:
http://www.adorocinema.com/filmes/malicia/malicia.asp
Sob a sombra do mal:
http://www.adorocinema.com/filmes/sob-a-sombra-do-mal/sob-a-sombra-do-mal.asp
Vidas em jogo:
http://www.adorocinema.com/filmes/vidas-em-jogo/vidas-em-jogo.asp
Face a face com o inimigo:
http://www.2001video.com.br/detalhes_produto_extra_dvd.asp?produto=11751
A farsa:
http://cineminha.uol.com.br/filme.cfm?id=75210
Todos exemplos vívidos de roteiros que mais se valem de uma história bem contada do que de reviravoltas sem sentido, que não têm razão de ser dentro da narrativa além de uma mera tentativa de fazer algo diferente do que já se fez. Essa característica, inclusive, está muito presente em alguns dos mais recentes produtos que Hollywood tem lançado goela abaixo de incautos espectadores.
Melhor mesmo é fazer uma coleta de informações para chegar a esses filmes injustamente esquecidos por grande parte dos que gostam de cinema, para ter agradáveis surpresas (desde que você não seja daqueles que tenham aversão a filmes mais antigos!). No Orkut há uma comunidade boa para isso, chamada “filmes que ninguém se lembra”. As pessoas da comunidade conhecem muitos desses filmes, ajudando bastante na lembrança dos nomes e até mesmo em como fazer para baixá-los nos variados softwares de download disponíveis na rede.
Vidas em jogo e Face a face com o inimigo estão disponíveis em DVD, sendo, por isso, mais fáceis de encontrar; os demais eu ainda não encontrei nesse formato, mas é possível baixar pela internet, desde que você saiba o título original da obra. Para ajudar, trago essa e outras informações por meio de links que encontrei na internet:
Malícia:
http://www.adorocinema.com/filmes/malicia/malicia.asp
Sob a sombra do mal:
http://www.adorocinema.com/filmes/sob-a-sombra-do-mal/sob-a-sombra-do-mal.asp
Vidas em jogo:
http://www.adorocinema.com/filmes/vidas-em-jogo/vidas-em-jogo.asp
Face a face com o inimigo:
http://www.2001video.com.br/detalhes_produto_extra_dvd.asp?produto=11751
A farsa:
http://cineminha.uol.com.br/filme.cfm?id=75210
sexta-feira, 6 de março de 2009
Cinema: dos primórdios ao diálogo com a literatura
O cinema, entre a invenção do cinematógrafo pelos irmãos Lumiére e os dias de hoje, apresentou especificidades que o tornaram uma arte autônoma, capaz de influenciar e dialogar com outras artes, entre elas com a literatura. Depois do início com um registro puramente documental, que não tinha nenhuma preocupação estética nem antropológica, o cinema tem um primeiro uso artístico por meio dos irmãos Auguste Marie e Louis Lumiére, com o filme A chegada do trem na estação, realizado em 1896. O filme produziu pela primeira vez um efeito catártico, saindo da mera documentação e inaugurando uma nova concepção de cinema. Com Viagem à lua, de 1902, Georges Méliès utiliza a trucagem, sopreposição de imagens jamais vista, a qual influenciará outros cineastas, como Einseistein, autor que teorizaria posteriormente a montagem no cinema e a utilizaria de forma absolutamente inovadora em O encouraçado Potemkin, de 1925.
Entretanto, a primeira aproximação entre cinema e literatura será com D. W. Griffith no seu O nascimento de uma nação, de 1915, com o autor buscando um modelo de narrativa na literatura tradicional do século XIX. Segue-se um momento de criatividade no cinema com o surgimento de movimentos como o expressionismo alemão e o surrealismo.
A Nouvelle Vague é um movimento de vanguarda, lançado em 1958, relevante nessa trajetória do firmamento do cinema como arte autônoma, pois propõe um momento de ruptura com um cinema tradicional, que se firma notadamente nos Estados Unidos, denominado cinema clássico, o qual utiliza uma estrutura linear, com eventos que se autoexplicam. Não mais há a preocupação de representar o real, mas sim uma tentativa se instaurar um modo metalinguístico de fazer cinema.
Apesar de os preceitos da Nouvelle Vague já se encontrarem cristalizados numa certa literatura, o movimento será importante ao propor uma política de autores, permitindo assim maior liberdade criativa e diminuindo um pouco o descompasso entre literatura e cinema, já que este se baseou num modo tradicional daquela num primeiro momento, não podendo, o cinema, em dado momento de sua história, acompanhar alguns movimentos de vanguarda da literatura. Surge, então, o cinema autoral, trazendo complexidade a uma linguagem que até então se resumia ao modelo tradicional, engessado pela época da política dos grandes estúdios.
Todo esse conjunto de avanços utilizados nos filmes, facilitado em parte pelos avanços tecnológicos percebidos na primeira metade do século XX, propiciou que a arte cinematográfica desenvolvesse características próprias, como o uso singular da montagem, a velocidade (apreendendo a velocidade típica do século XX), a simultaneidade, consolidando-se como uma arte espacial. Autores da literatura, então, percebendo tal desenvolvimento, foram se apropriando de aspectos próprios do cinema, como Oswald de Andrade, no poema Hípica, no qual se pode perceber aspectos como descontinuidade, utilização de recortes e movimento. O conto Todos os Fogos, o Fogo, de Julio Cortazar, de 1964, faz uso de um tipo de encadeamento da história inspirado na montagem do cinema, além de trazer claras referências a uma luta de gladiadores realizada por Stanley Kubrick no filme Spartacus, de 1960, o que sinaliza a intertextualidade em obras literárias.
Depreende-se, portanto, que, devido aos elementos próprios os quais o cinema desenvolveu ao longo da inovação de seus realizadores e fundamentação de teóricos, as relações mantidas notadamente com a literatura sofreram grande impacto. Se num primeiro momento o cinema foi buscar na literatura tradicional um modelo de narrativa, será a literatura posteriormente a buscar no cinema um meio de se expressar, afetando o modus operandi desta, apesar de a arte cinematográfica continuar buscando, por vezes, na literatura modos de se contar uma história.
Entretanto, a primeira aproximação entre cinema e literatura será com D. W. Griffith no seu O nascimento de uma nação, de 1915, com o autor buscando um modelo de narrativa na literatura tradicional do século XIX. Segue-se um momento de criatividade no cinema com o surgimento de movimentos como o expressionismo alemão e o surrealismo.
A Nouvelle Vague é um movimento de vanguarda, lançado em 1958, relevante nessa trajetória do firmamento do cinema como arte autônoma, pois propõe um momento de ruptura com um cinema tradicional, que se firma notadamente nos Estados Unidos, denominado cinema clássico, o qual utiliza uma estrutura linear, com eventos que se autoexplicam. Não mais há a preocupação de representar o real, mas sim uma tentativa se instaurar um modo metalinguístico de fazer cinema.
Apesar de os preceitos da Nouvelle Vague já se encontrarem cristalizados numa certa literatura, o movimento será importante ao propor uma política de autores, permitindo assim maior liberdade criativa e diminuindo um pouco o descompasso entre literatura e cinema, já que este se baseou num modo tradicional daquela num primeiro momento, não podendo, o cinema, em dado momento de sua história, acompanhar alguns movimentos de vanguarda da literatura. Surge, então, o cinema autoral, trazendo complexidade a uma linguagem que até então se resumia ao modelo tradicional, engessado pela época da política dos grandes estúdios.
Todo esse conjunto de avanços utilizados nos filmes, facilitado em parte pelos avanços tecnológicos percebidos na primeira metade do século XX, propiciou que a arte cinematográfica desenvolvesse características próprias, como o uso singular da montagem, a velocidade (apreendendo a velocidade típica do século XX), a simultaneidade, consolidando-se como uma arte espacial. Autores da literatura, então, percebendo tal desenvolvimento, foram se apropriando de aspectos próprios do cinema, como Oswald de Andrade, no poema Hípica, no qual se pode perceber aspectos como descontinuidade, utilização de recortes e movimento. O conto Todos os Fogos, o Fogo, de Julio Cortazar, de 1964, faz uso de um tipo de encadeamento da história inspirado na montagem do cinema, além de trazer claras referências a uma luta de gladiadores realizada por Stanley Kubrick no filme Spartacus, de 1960, o que sinaliza a intertextualidade em obras literárias.
Depreende-se, portanto, que, devido aos elementos próprios os quais o cinema desenvolveu ao longo da inovação de seus realizadores e fundamentação de teóricos, as relações mantidas notadamente com a literatura sofreram grande impacto. Se num primeiro momento o cinema foi buscar na literatura tradicional um modelo de narrativa, será a literatura posteriormente a buscar no cinema um meio de se expressar, afetando o modus operandi desta, apesar de a arte cinematográfica continuar buscando, por vezes, na literatura modos de se contar uma história.
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